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Guia gratuito

Guia prático de CAA para famílias e escolas

O que é Comunicação Aumentativa e Alternativa, para quem serve, o que a pesquisa diz e como começar hoje, em casa e na sala de aula.

Equipe falatheo · Atualizado em · cerca de 8 minutos de leitura

1. O que é CAA

Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é o conjunto de formas de se comunicar que complementam ou substituem a fala. A Associação Americana de Fonoaudiologia (ASHA) inclui nessa definição tanto recursos sem tecnologia, como gestos, sinais e expressões faciais, quanto recursos com apoio externo, como pranchas com figuras, pastas de comunicação, tablets e celulares com aplicativos que falam.

"Aumentativa" quer dizer que ela soma à fala que já existe. "Alternativa" quer dizer que ela pode ocupar o lugar da fala quando a fala não dá conta. Muitas pessoas usam as duas coisas ao mesmo tempo: falam algumas palavras, apontam outras e usam gestos para o resto. Tudo isso conta.

2. Para quem é

A CAA serve para qualquer pessoa cuja fala não é suficiente para dizer tudo o que ela precisa, em qualquer idade. Isso inclui crianças autistas, pessoas com paralisia cerebral, síndrome de Down, apraxia de fala na infância, deficiência intelectual, doenças neuromusculares e adultos depois de um AVC, por exemplo. O diagnóstico ajuda a planejar, mas não é o que decide se a pessoa "pode" usar CAA.

Não existem pré-requisitos. Por muito tempo se acreditou que a criança precisava ter uma certa idade, entender figuras ou "estar pronta" antes de receber CAA. As pesquisadoras Mary Ann Romski e Rose Sevcik mostraram que essas ideias são mitos: a comunicação se aprende usando, e esperar só faz a criança perder tempo de prática.

3. CAA atrapalha a fala?

Essa é a dúvida mais comum das famílias, e a resposta da pesquisa é não. Uma revisão de estudos publicada em 2006 por Millar, Light e Schlosser não encontrou nenhum caso de piora da fala depois da introdução da CAA; em parte dos participantes houve até algum ganho na fala. A ASHA também afirma que a CAA não impede o desenvolvimento da fala.

Faz sentido: quando a pessoa consegue se fazer entender, a comunicação deixa de ser uma fonte de frustração e passa a ser algo que vale a pena tentar, de todas as formas.

4. Prancha de papel ou aplicativo?

Costuma-se falar em três níveis de tecnologia:

  • Sem tecnologia: gestos, sinais, olhar, expressões.
  • Baixa tecnologia: pranchas e pastas impressas com figuras e palavras. Não precisam de bateria e funcionam na piscina, no ônibus e no parque.
  • Alta tecnologia: tablets e celulares com aplicativos que falam em voz alta, guardam muitas palavras e permitem montar frases.

Não é preciso escolher um só. O ideal é ter as duas coisas: o aplicativo no dia a dia e uma prancha de papel com as mesmas palavras, nos mesmos lugares, para quando o aparelho não puder estar junto. Você pode começar com a nossa prancha grátis para imprimir.

5. Vocabulário núcleo: as palavras que servem para tudo

Muitas pranchas caseiras têm só substantivos: comida, brinquedos, lugares. Elas ajudam a pedir coisas, mas não deixam a pessoa dizer "não quero", "de novo", "acabou", "eu também" ou "por quê?". Estudos sobre o vocabulário de crianças pequenas e em idade escolar mostram que um conjunto pequeno de palavras, principalmente pronomes, verbos, advérbios e preposições, aparece na maior parte do que dizemos. É o chamado vocabulário núcleo.

Uma boa prancha combina essas palavras núcleo (eu, você, quero, ir, mais, não, isso, aqui, bom, ruim) com palavras do dia a dia da pessoa (o nome do irmão, a comida preferida, a escola). E cada palavra deve ficar sempre no mesmo lugar, para que a pessoa possa encontrá-la cada vez mais rápido, quase sem olhar.

6. Modelagem: o que mais faz diferença

Ninguém aprende uma língua sem ouvir as pessoas falando com ela. Na CAA é igual: a pessoa precisa ver os outros usando a prancha ou o aplicativo para conversar. Isso se chama modelagem (ou "entrada de linguagem assistida"): você fala normalmente e, ao mesmo tempo, aponta ou toca as palavras principais.

É a estratégia com a evidência mais forte. Uma meta-análise de O'Neill, Light e Pope (2018) concluiu que intervenções em que os parceiros de comunicação modelam com CAA são altamente eficazes para compreensão e expressão, em diferentes idades e diagnósticos. Outros estudos mostram que pais, professores e colegas conseguem aprender a modelar com orientação curta e prática.

Na prática, três hábitos ajudam muito:

  1. Modele sem cobrar. "Vamos ir ao parque?" tocando em ir e parque. Não peça para a criança repetir.
  2. Espere de verdade. Depois de falar ou perguntar, fique em silêncio por alguns segundos, olhando para a pessoa com expectativa.
  3. Faça perguntas abertas. Em vez de "você quer suco?", experimente "o que você quer?" ou "o que aconteceu?".

Um exemplo: na hora do lanche, em vez de perguntar "quer mais?" e esperar um sim, diga "eu quero mais biscoito" tocando nas três palavras, coma um pedaço e espere. Se a criança tocar mais, responda na hora e amplie: "mais biscoito! Você quer mais." Uma palavra a mais do que ela usou, sem correção e sem pressa.

7. Em casa

  • Escolha uma rotina para começar: o banho, o café da manhã ou a hora de brincar. Modele ali todos os dias antes de tentar em todo lugar.
  • Deixe a CAA sempre por perto. O aplicativo ou a prancha precisam estar ao alcance o tempo todo, não só "na hora da terapia".
  • Inclua todo mundo. Avós, irmãos e babás também podem modelar. Quanto mais parceiros, mais a pessoa usa.
  • Responda a tudo. Se a criança tocou "bolha" no meio do jantar, ela está se comunicando. Responda, mesmo que não seja a hora.
  • Comemore a mensagem, não a precisão. O importante é ser entendido, não acertar a palavra perfeita.

8. Na escola

A escola é onde a criança passa boa parte do dia, e onde mais precisa de comunicação: para pedir ajuda, participar da aula, brincar no recreio e dizer o que sente. Algumas combinações fazem diferença:

  • Use as mesmas palavras nos mesmos lugares em casa, na escola e no consultório.
  • Envolva toda a equipe: professor regente, professor do AEE, profissional de apoio e colegas de turma.
  • Prepare o vocabulário da aula com antecedência: as palavras do tema da semana, do experimento, da história.
  • Tenha pranchas fixas no pátio, no refeitório e no banheiro. A Lei nº 15.249/2025 prevê recursos de CAA de baixa tecnologia em espaços públicos e de uso público, incluindo escolas.

A profissional de apoio (mediadora) costuma ser a parceira de comunicação mais presente da criança na escola. Vale que ela receba a mesma orientação que a família recebe da fonoaudióloga: como modelar, quanto esperar e como responder. Combine também como a escola vai contar para a família o que a criança disse durante o dia; um "hoje ele pediu de novo no balanço" é ótimo assunto para conversar em casa.

9. O papel da fonoaudióloga

Este guia ajuda a começar, mas não substitui uma avaliação profissional. No Brasil, a Resolução CFFa nº 799/2025 regulamentou a atuação da fonoaudióloga em CAA: avaliar as habilidades da pessoa, indicar e implementar o sistema, escolher vocabulário e símbolos junto com a família e a equipe, acompanhar, reavaliar e orientar os parceiros de comunicação. Terapeutas ocupacionais, psicólogas e professores também fazem parte da equipe.

Se a pessoa que você cuida ainda não tem acompanhamento, procure uma fonoaudióloga com experiência em CAA, no SUS (por exemplo, em um Centro Especializado em Reabilitação), no plano de saúde ou em clínicas-escola de universidades.

10. Erros comuns (e o que fazer no lugar)

  • Guardar a prancha "para não estragar". Deixe sempre à mão; faça cópias.
  • Exigir que a criança fale antes de dar o que ela pediu na CAA. Responda à mensagem que ela deu.
  • Usar a CAA só para pedir coisas. Modele também comentários, sentimentos, perguntas e brincadeiras.
  • Mudar as palavras de lugar o tempo todo. Acrescente palavras novas sem tirar as antigas do lugar.
  • Desistir em poucas semanas. Aprender uma forma nova de se comunicar leva meses, como aprender a falar. Modelagem frequente é o que mais acelera.

Fontes

  • American Speech-Language-Hearing Association (ASHA). Augmentative and Alternative Communication — Practice Portal.
  • International Society for Augmentative and Alternative Communication (ISAAC). isaac-online.org.
  • Romski, M. A.; Sevcik, R. A. (2005). Augmentative communication and early intervention: myths and realities. Infants & Young Children, 18(3), 174–185.
  • Millar, D. C.; Light, J. C.; Schlosser, R. W. (2006). The impact of augmentative and alternative communication intervention on the speech production of individuals with developmental disabilities: a research review. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 49(2), 248–264.
  • O'Neill, T.; Light, J.; Pope, L. (2018). Effects of interventions that include aided augmentative and alternative communication input on the communication of individuals with complex communication needs: a meta-analysis. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 61(7), 1743–1765. doi:10.1044/2018_JSLHR-L-17-0132.
  • Sennott, S. C.; Light, J. C.; McNaughton, D. (2016). AAC modeling intervention research review. Research and Practice for Persons with Severe Disabilities, 41(2), 101–115. doi:10.1177/1540796916638822.
  • Kent-Walsh, J.; Murza, K. A.; Malani, M. D.; Binger, C. (2015). Effects of communication partner instruction on the communication of individuals using AAC: a meta-analysis. Augmentative and Alternative Communication, 31(4), 271–284.
  • Banajee, M.; Dicarlo, C.; Stricklin, S. B. (2003). Core vocabulary determination for toddlers. Augmentative and Alternative Communication, 19(2), 67–73.
  • Boenisch, J.; Soto, G. (2015). The oral core vocabulary of typically developing English-speaking school-aged children: implications for AAC practice. Augmentative and Alternative Communication, 31(1), 77–84.
  • Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resolução CFFa nº 799/2025.
  • Brasil. Lei nº 15.249, de 3 de novembro de 2025.

Este guia tem caráter informativo e não substitui a avaliação e o acompanhamento de profissionais de saúde e educação.