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Para famílias, escolas e equipes

PECS, pranchas de papel e CAA de alta tecnologia: como se complementam

PECS, prancha de papel ou aplicativo? A pergunta aparece em todo grupo de famílias. A resposta curta é que não são concorrentes: cada um faz uma coisa bem, e a maioria das pessoas que usa CAA se beneficia de mais de um ao mesmo tempo, com as mesmas palavras nos mesmos lugares.

Equipe falatheo · Atualizado em · cerca de 8 minutos de leitura

1. Três coisas diferentes

A confusão começa porque os três nomes não estão na mesma categoria:

  • PECS é um método de ensino, com fases definidas, criado por Andy Bondy e Lori Frost nos anos 1980.
  • Pranchas de papel (e pastas, cartões, chaveiros) são um recurso de baixa tecnologia: figuras e palavras impressas, sem bateria.
  • CAA de alta tecnologia é um recurso com voz: tablets e celulares com aplicativos que falam, guardam muitas palavras e permitem montar frases.

Dá para ensinar com PECS usando cartões de papel; dá para usar uma prancha de papel sem seguir o PECS; dá para ter o mesmo vocabulário no papel e no app. "Comunicação Aumentativa e Alternativa" é o nome do conjunto todo.

2. PECS: o que é e o que a pesquisa diz

O Picture Exchange Communication System ensina a pessoa a entregar uma figura para conseguir o que quer. Começa com uma figura e um item muito desejado, passa pela distância e pela persistência, pela escolha entre figuras, pela frase "eu quero" e, nas últimas fases, por responder a perguntas e comentar. É estruturado, tem material de formação próprio e é muito conhecido no Brasil, inclusive em versões adaptadas para professores do AEE (Walter e Nunes, 2013, no Rio de Janeiro).

O que a pesquisa mostra: o PECS tem evidência sólida para pedir. A revisão do National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice (NCAEP, 2020) o inclui dentro da prática baseada em evidências "CAA". A evidência para funções além do pedido (comentar, perguntar, recusar, contar) é bem menor, e é aí que a troca de figuras encontra o seu limite: ninguém entrega um cartão para dizer "que legal" ou "não quero mais". Por isso muitas equipes usam o PECS para começar e ampliam com um vocabulário mais completo depois.

3. Pranchas de papel: o que só elas garantem

  • Nunca acaba a bateria. Funcionam na piscina, no ônibus, na chuva, na UTI.
  • Custam quase nada. Impressão, plastificação, velcro. Qualquer escola ou unidade de saúde consegue.
  • Servem para apontar junto. Quando a pessoa não consegue tocar, o parceiro aponta as opções e ela confirma com o olhar ou um gesto (varredura assistida pelo parceiro).
  • Cumprem a lei. A Lei nº 15.249/2025 prevê CAA de baixa tecnologia no AEE e nos espaços públicos; o resumo está aqui.

O guia de CAA do Ministério da Saúde em consulta pública (2026) é direto: "um sistema de baixa tecnologia, quando bem indicado, é superior a um dispositivo de alta tecnologia subutilizado", e recomenda manter sempre um recurso de papel de reserva. Os limites do papel também são claros: não fala em voz alta (quem está longe ou não conhece a pessoa não entende), cabem poucas palavras por página, e trocar de página é lento.

4. CAA de alta tecnologia: o que o app acrescenta

  • Voz. A mensagem chega a quem está do outro lado da sala, ao atendente da padaria, ao colega que não conhece os símbolos.
  • Muitas palavras em pastas, com busca, frases prontas e teclado para quem escreve.
  • Edição a distância. A fonoaudióloga, a família e a escola podem ajustar a prancha sem o aparelho na mão (no falatheo, a partir da versão 0.1.6 do app).
  • Registros de uso, quando a família autoriza, para a equipe acompanhar que palavras a pessoa usa de verdade.
  • Acesso alternativo: varredura com acionador, grades fixas para colmeias, tempo de toque ajustável.

E os limites: bateria, custo do aparelho, tela que não responde com a mão molhada, aplicativos que mudam as palavras de lugar sozinhos, vozes pagas ou mecânicas, anúncios. Um estudo com crianças de 2 a 4 anos mostrou que posições fixas das palavras tornam a busca mais rápida já na quinta sessão (Thistle e colegas, 2018): o app só ajuda se as palavras pararem de se mover.

5. Como se complementam

O que cada recurso faz bem e onde precisa dos outros
PECSPrancha de papelApp com voz
Para que serve melhorEnsinar a iniciar um pedidoEstar sempre disponível; apontar juntoFalar para qualquer pessoa; vocabulário grande
Precisa deAdulto treinado nas fases; itens motivadoresImpressão e plastificação; adultos que modelamAparelho carregado; adultos que modelam
Onde falha sozinhoComentar, perguntar, recusarSer ouvido a distância; muitas palavrasSem bateria, na água, com anúncios
Junto com os outrosUsa as mesmas figuras da prancha e do appCópia idêntica da prancha principal do appMesmas palavras nos mesmos lugares da prancha

A combinação mais comum e mais defendida pelas equipes: um vocabulário, vários suportes. A prancha de papel é a cópia da tela principal do app. As figuras do PECS são as mesmas figuras da prancha. A pessoa não precisa reaprender onde está "quero" quando troca de suporte. Por isso a nossa prancha para imprimir segue a mesma base de vocabulário núcleo e as mesmas cores da prancha principal do app.

6. Quem decide, e como

A escolha do sistema é uma decisão compartilhada entre a pessoa, a família, a escola e a equipe, com a avaliação de uma fonoaudióloga e, quando houver, de uma terapeuta ocupacional (que cuida da forma de acesso e do posicionamento). O caminho usual é avaliar as habilidades, listar o que a pessoa precisa comunicar e onde, comparar recursos com essas necessidades e experimentar por algumas semanas antes de decidir. Nada impede que a família comece hoje com uma prancha de papel e modelagem em casa, enquanto a avaliação acontece.

7. Perguntas frequentes

PECS é a mesma coisa que CAA?

PECS é um protocolo específico de ensino, criado por Bondy e Frost, que começa pela troca de figuras para pedir. CAA é o nome do conjunto de todas as formas de comunicação que complementam ou substituem a fala: gestos, sinais, pranchas de papel, pastas, aplicativos com voz. PECS é uma das abordagens dentro da CAA.

Devo escolher entre prancha de papel e aplicativo?

Não. A recomendação mais comum, inclusive no guia de CAA do Ministério da Saúde em consulta pública, é manter sempre um recurso de baixa tecnologia junto com o de alta tecnologia, com as mesmas palavras nos mesmos lugares. O papel não acaba a bateria; o app fala em voz alta e guarda muitas palavras.

Quem decide qual sistema usar?

A decisão é compartilhada: a pessoa, a família, a escola e a equipe, com a avaliação da fonoaudióloga e, quando houver, da terapeuta ocupacional. É comum experimentar um sistema por algumas semanas antes de decidir.

Fontes

PECS é marca de Pyramid Educational Consultants. Este texto é informativo e não substitui a avaliação de profissionais de saúde e educação.