Para adultos, famílias e equipes
CAA para adultos: AVC, afasia, ELA e UTI
A maior parte do que se escreve sobre CAA fala de crianças. Mas quem perde a fala depois de um AVC, com a ELA, numa internação ou com a demência também precisa de um jeito de dizer "dói", "não", "me dá um minuto" e "eu te amo". Esta página reúne o que funciona para adultos e o que ainda falta.
Equipe falatheo · Atualizado em · cerca de 8 minutos de leitura
1. O que muda quando a pessoa é adulta
Adultos que usam CAA, quando ouvidos, pedem três coisas: um app que não pareça brinquedo, vocabulário adulto completo (inclusive sobre corpo, sexualidade, dinheiro e trabalho; "usuários de CAA não são seres eternamente puros", escreveu uma usuária) e frases guardadas que saem rápido, porque uma conversa não espera. Muitos usam CAA em tempo parcial: falam quando dá, digitam ou tocam quando a fala não vem ou cansa demais. Isso não é "regressão"; é escolher o canal que funciona naquele momento.
Também muda a forma de acesso. Depois de um AVC, de uma lesão medular ou com uma doença neuromuscular, tocar com precisão pode ser difícil: entram o acionador com varredura, a colmeia (keyguard) sobre a tela, o tempo de toque ajustável, o controle por olhar em alguns aparelhos, e a prancha de papel com o parceiro apontando.
2. AVC e afasia
Na afasia, a pessoa sabe o que quer dizer e não encontra a palavra, ou não consegue montar a frase. Grades cheias de símbolos pequenos exigem exatamente o que está difícil: procurar e combinar palavras. Por isso a pesquisa com adultos com afasia aponta para cenas visuais (visual scene displays): uma foto de uma situação real (a cozinha de casa, a mesa do almoço de domingo, o consultório) com pontos quentes que falam ("quero café", "quem vem hoje?"). Beukelman, Hux, Dietz, McKelvey e Weissling (2015) descrevem a abordagem; um estudo de 2022 encontrou precisão parecida entre grades e cenas, mas processamento mais eficiente com as cenas.
Na prática: fotos da própria vida, poucas opções por tela, frases inteiras em vez de palavras soltas, e um parceiro que escreve palavras-chave e desenha enquanto conversa. A avaliação da fonoaudióloga define o quanto a pessoa consegue ler, apontar e combinar.
3. ELA: gravar a própria voz
Na esclerose lateral amiotrófica a fala costuma ir embora aos poucos. A orientação das associações de pessoas com ELA é começar logo após o diagnóstico a guardar a própria voz: o message banking é gravar frases e expressões que a pessoa quer continuar dizendo com a sua voz ("bom dia, meu amor", o apelido dos filhos, a piada de sempre, "me deixa em paz"), para tocá-las depois com um botão. As gravações também podem alimentar vozes sintéticas personalizadas quando esse serviço existe no idioma.
Em português do Brasil a oferta é pequena: o recurso de voz pessoal do iPhone não existe em português, e rastreadores de olhar comerciais custam caro. O caminho realista hoje é gravar a própria voz botão a botão no app, ter teclado com frases guardadas e manter uma prancha de papel com o alfabeto para quando o aparelho não puder estar junto.
4. Hospital e UTI
Quem está intubado ou traqueostomizado acorda sem voz, muitas vezes com as mãos presas ou fracas, cercado de pessoas que não o conhecem. O que a pessoa precisa dizer é curto e urgente: dor (e onde, e quanto), sede, falta de ar, posição, banheiro, medo, "chama minha filha", sim e não.
A pesquisa com equipes de enfermagem é consistente em um ponto: a prancha ajuda quando a equipe é orientada a usá-la. O programa SPEACS (Happ e colegas, 2014) combinou treinamento de enfermeiras e recursos de CAA e aumentou as trocas sobre dor; sem orientação, os recursos ficam na gaveta. No Brasil, hospitais em São Paulo, no Rio, na Paraíba e em Fortaleza usam pranchas de papel desde a pandemia, sem um protocolo comum.
Para começar hoje: imprima a prancha de hospital e UTI (dor de 0 a 10, necessidades, sim/não, alfabeto), plastifique, deixe na cabeceira e explique a cada turno como apontar e esperar.
5. Demência
Com a demência, o recurso mais estudado é simples: livros de memória com fotos e frases curtas sobre a pessoa, a família e a rotina, que ajudam a sustentar a conversa. Bourgeois e colegas (2001) mostraram ganhos na conversa entre cuidadores e residentes; revisões posteriores (Egan e colegas, 2010) confirmam o efeito com treinamento do cuidador. De novo: o recurso só funciona junto com as pessoas em volta.
6. "Estou pensando": o direito a mais tempo
A frase mais repetida por adultos que usam CAA não é sobre símbolos nem vozes. É sobre tempo: "as pessoas se movem rápido demais para mim"; "quando eu termino de processar, a conversa já mudou"; "me dê tempo e espaço para eu não me sentir apressado". Pausas de até 45 segundos levam a mais turnos de conversa, não a menos.
Dois botões resolvem boa parte disso: "Estou pensando" e "Preciso de mais tempo", sempre no mesmo lugar, para a pessoa avisar que a resposta está vindo. E uma orientação para quem está do outro lado: espere em silêncio, sem completar a frase, sem olhar o relógio.
7. O que o falatheo tem e o que está em preparação
- Hoje, no app das lojas (0.1.2): 145 palavras em português, teclado com previsão de palavras e frases guardadas, Recentes com um toque, voz funcionando sem internet e com o iPhone no modo silencioso, modo cuidador para editar no aparelho.
- Na versão 0.1.6, em preparação para as lojas: 521 palavras com categorias adultas (trabalho, saúde, dinheiro, corpo, dor e emergência), botão "Preciso de mais tempo", PIN no modo cuidador, varredura com acionador e grades fixas para colmeias, formas no masculino, feminino ou neutro, e a conexão com o portal para edição a distância.
- Também em preparação, sem data: "Gravar minha voz" (sua gravação em qualquer botão, para message banking), a pasta "Hospital / UTI" com dor, necessidades e alfabeto, e o botão "Estou pensando" ao lado da barra de frases. Publicaremos quando estiverem testados.
- O que não temos: voz neural personalizada em português, controle por olhar dentro do app (use o do sistema, quando houver) e cenas visuais com pontos quentes. Para afasia, hoje o caminho no falatheo é prancha com fotos e frases inteiras.
8. Perguntas frequentes
Um adulto que perdeu a fala depois de um AVC pode usar app de comunicação?
Sim. Na afasia, recursos com fotos de cenas reais (visual scene displays) e vocabulário adulto costumam funcionar melhor do que grades infantis; a avaliação de uma fonoaudióloga ajuda a escolher o formato e a forma de acesso.
O que é message banking?
É gravar, com a própria voz, frases e expressões que a pessoa quer continuar dizendo (um apelido, uma piada, "eu te amo") enquanto a fala ainda permite. Associações de pessoas com ELA recomendam começar logo após o diagnóstico. No falatheo, gravar a própria voz em botões do app está em preparação para as próximas versões.
Tem prancha de comunicação para UTI?
Sim. Nesta página há uma prancha para hospital e UTI para imprimir, com dor de 0 a 10, necessidades básicas, sim/não e alfabeto. Estudos com equipes de enfermagem mostram que o recurso ajuda mais quando a equipe é orientada a usá-lo.
Fontes
- Beukelman, D. R.; Hux, K.; Dietz, A.; McKelvey, M.; Weissling, K. (2015). Using visual scene displays as communication support options for people with chronic, severe aphasia. Augmentative and Alternative Communication, 31(3).
- American Journal of Speech-Language Pathology (2022): grid vs. visual scene displays em afasia. doi:10.1044/2022_AJSLP-21-00248.
- ALS Association. Message banking and voice banking (orientações para pessoas com ELA).
- Happ, M. B. et al. (2014). SPEACS: nurse training and AAC in the ICU. PMC4855698.
- Bourgeois, M. S. et al. (2001). Memory aids as an AAC strategy for nursing home residents with dementia. Augmentative and Alternative Communication, 17(3). Egan, M. et al. (2010). Methods to enhance verbal communication between individuals with Alzheimer's disease and their formal and informal caregivers: a systematic review. International Journal of Alzheimer's Disease.
- Frisch, Peters e Vertanen (2025). Grupo focal com adultos usuários de CAA. arXiv:2507.00202.
- AssistiveWare. Sexuality symbols in Proloquo2Go (vocabulário adulto).
- Microsoft Research. AAC and self-expression (velocidade de digitação por olhar).
Este texto é informativo e não substitui a avaliação e o acompanhamento de profissionais de saúde.