Para professores
Guia do professor do AEE: CAA na sala de recursos e na sala comum
Um estudante que não fala, ou fala pouco, chegou à sua sala de recursos. Este guia explica o que é Comunicação Aumentativa e Alternativa, o que fazer já na primeira semana, como funciona o portal gratuito do professor no falatheo, como o tablet da escola se conecta e o que a lei garante.
Equipe falatheo · Atualizado em · cerca de 10 minutos de leitura
1. O que é CAA (em dois minutos)
Comunicação Aumentativa e Alternativa é tudo o que complementa ou substitui a fala: gestos, olhar, pranchas e pastas com figuras, e aplicativos que falam em voz alta. "Aumentativa" porque soma à fala que existe; "alternativa" porque pode ocupar o lugar dela. Não tem pré-requisito, não tem idade mínima e, segundo a pesquisa, não atrapalha a fala (Millar, Light e Schlosser, 2006).
A ideia central para o professor: a criança aprende a usar a prancha vendo os adultos usarem a prancha para falar com ela. Isso se chama modelagem. Nenhuma formação, aplicativo ou laudo substitui esse hábito.
2. A primeira semana
- Pergunte à família como a criança se comunica hoje. Gestos, sons, palavras, levar pela mão, prancha, app. Se já usa um recurso em casa, use o mesmo na escola, com as mesmas palavras nos mesmos lugares.
- Imprima uma prancha (núcleo e escola), plastifique e deixe sempre no mesmo lugar da sala de recursos.
- Modele sem cobrar. Fale normalmente e toque as palavras principais: "vamos ler", "acabou", "quer mais?". Não peça para a criança repetir, não teste ("onde está o azul?").
- Espere 10 segundos depois de perguntar. Em silêncio, olhando para ela.
- Responda a toda tentativa de comunicação, mesmo "fora de hora". Tocou não no meio da atividade? "Você disse não. Tá bom, vamos parar um pouco."
- Registre no estudo de caso: o que a criança fez com a prancha, por menor que seja, e o que você modelou. Isso vira o ponto de partida do PAEE.
3. Na sala comum: o que combinar com o regente e o mediador
- A prancha vai junto. Para a sala comum, o pátio, o refeitório e o banheiro. Cópias fixas nesses lugares ajudam todo mundo, não só um aluno.
- Vocabulário da semana. O tema da aula, a história, o experimento: separe 5 a 10 palavras e mostre onde estão na prancha (ou acrescente no app) antes da aula.
- O mediador (profissional de apoio) é o parceiro mais presente. Ele precisa da mesma orientação que você: modelar, esperar, responder. Combine um jeito de contar para a família o que a criança disse no dia.
- Colegas também modelam. Crianças aprendem rápido a apontar na prancha para conversar com o colega; isso costuma ser o que mais motiva.
- Nunca mude as palavras de lugar. Acrescente sem tirar; a criança aprende "onde fica" como aprende a digitar sem olhar.
4. Pranchas para imprimir
- Prancha núcleo (60 palavras): pronomes, verbos, palavras para descrever e sentir, palavrinhas. Serve para qualquer situação.
- Prancha da escola: sala, pátio, refeitório, banheiro, materiais.
- Tudo em A4, grátis, com as cores de Fitzgerald (pessoas em amarelo, ações em verde, descrições em azul). Imprima em cores se puder; em preto e branco, a borda colorida vira cinza e ainda funciona.
5. O portal do professor (gratuito)
O falatheo tem um portal web para quem está em volta da pessoa que usa o app. Para professores ele é gratuito, sem limite e sem cartão: a escola não paga nada e não precisa de licença. Você entra por convite da família ou da profissional que acompanha o estudante (não dá para criar uma conta de professor sozinho, porque o estudante pertence à família).
O que cada papel pode fazer:
| Papel | Vê | Faz |
|---|---|---|
| Professor do AEE | Pranchas, diário da equipe, aparelhos conectados, resumo de uso (se a família autorizou) | Edita as pranchas do estudante, conecta o tablet da escola, escreve no diário |
| Professor regente | Pranchas e diário da equipe | Escreve no diário; não edita pranchas |
| Mediador / profissional de apoio | Pranchas e diário da equipe | Escreve no diário |
O diário da equipe é um fio de conversa entre família, escola e profissionais ("hoje ele pediu de novo no balanço"). Anotações clínicas privadas da profissional nunca aparecem para a escola; a escola vê apenas o que for compartilhado com ela.
6. Como conectar o tablet da escola
A partir da versão 0.1.6 do app (a versão nas lojas em outubro de 2026, 0.1.2, ainda funciona de forma independente), o professor do AEE conecta o tablet da sala de recursos assim:
- No portal, abra o estudante e a aba Aparelhos. Toque em Conectar o app: aparece um código de 6 dígitos e um QR code, válidos por pouco tempo.
- No tablet, instale o falatheo (grátis na App Store ou no Google Play), entre no modo cuidador e escolha Conectar. Digite o código ou aponte a câmera para o QR. Marque que o aparelho fica na escola.
- As pranchas do estudante chegam ao tablet. A partir daí, qualquer ajuste feito no portal (por você, pela família ou pela fonoaudióloga) é baixado em segundo plano quando houver internet.
- O app continua funcionando 100% offline. A internet só serve para receber pranchas novas.
Dados de uso (que botões foram tocados) só saem do tablet se a família autorizar no portal, e a autorização pode ser retirada a qualquer momento. Sem conexão com o portal, o app não envia nada.
7. O que a lei diz
- AEE sem laudo. Decreto nº 12.686/2025, art. 11, § 7º: a oferta do AEE não depende de diagnóstico, laudo, relatório ou qualquer documento de profissional de saúde. O plano se baseia no estudo de caso, com a família.
- CAA de baixa tecnologia no AEE. Lei nº 15.249/2025 (LBI, art. 28, XIX): pranchas e recursos de baixa tecnologia para estudantes com necessidades complexas de comunicação, e capacitação permanente das equipes.
- Tablet na sala. Decreto nº 12.686/2025, art. 12, § 4º: a escola emite parecer pedagógico autorizando o dispositivo portátil como tecnologia assistiva.
- PEI e PAEE obrigatórios (Decreto nº 12.773/2025), sem modelo federal único. Um subsídio ao PEI/PAEE escrito pela profissional de saúde ajuda, mas não é condição.
Resumo completo em Lei 15.249/2025: o que muda na escola.
8. Formação: o que funcionou com professores
Professores do AEE dizem querer usar CAA e não ter formação (UFSCar, 27 professores; guia UNESPAR 2024). Os formatos com resultado publicado no Brasil são curtos e práticos: a autoscopia da UERJ (o professor assiste ao vídeo da própria aula e comenta), quatro encontros na FURG (2025), cinco professoras acompanhadas por Barbosa e Nunes (2026), e o curso de PECS adaptado de Walter e Nunes (2013). O que eles têm em comum: pouca teoria, muita prática na própria sala, e alguém que devolve o que viu.
9. Perguntas frequentes
O portal do professor é pago?
Não. Professores entram de graça, sempre. A escola não paga nada e não precisa de licença. Quem pode escolher um plano pago são clínicas e profissionais de saúde, no portal deles.
Como o professor entra no portal?
Por convite. A família ou a profissional que acompanha o estudante envia um convite por e-mail; o professor aceita, cria a senha e vê o estudante. Professores do AEE podem editar pranchas e conectar o tablet da escola; professores regentes e mediadores veem as pranchas e escrevem no diário da equipe.
Preciso de laudo para usar CAA com um aluno?
Não. O Decreto nº 12.686/2025 garante o AEE sem exigência de laudo, e a Lei nº 15.249/2025 prevê recursos de CAA de baixa tecnologia no AEE. Uma prancha impressa pode começar hoje.
Fontes
- Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025 · Decreto nº 12.773, de 8 de dezembro de 2025.
- Lei nº 15.249, de 3 de novembro de 2025.
- Millar, D. C.; Light, J. C.; Schlosser, R. W. (2006). JSLHR, 49(2), 248–264.
- O'Neill, T.; Light, J.; Pope, L. (2018). JSLHR, 61(7). doi:10.1044/2018_JSLHR-L-17-0132.
- Kent-Walsh, J. et al. (2015). Communication partner instruction: a meta-analysis. AAC, 31(4).
- Walter, C. C. F.; Nunes, L. R. O. P. (2013). Comunicação alternativa para alunos com autismo no ensino regular. Revista Educação Especial.
- Nunes, L. R. O. P.; Walter, C. C. F. (2014). AAC and autism in Brazil: a descriptive review. Education Policy Analysis Archives.
- Inep. Censo Escolar 2025.
Este guia é informativo e não substitui a orientação da sua rede de ensino nem a avaliação de profissionais de saúde.