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Para famílias

Como começar CAA em casa em 7 dias

Um plano de uma semana para começar a usar Comunicação Aumentativa e Alternativa em casa, com uma prancha impressa ou o aplicativo. Sem cobrar nada da criança, sem testar, sem pressa. E a resposta, com fontes, para a pergunta que toda família faz: CAA atrapalha a fala?

Equipe falatheo · Atualizado em · cerca de 9 minutos de leitura

1. Antes de começar: três regras

A pesquisa em CAA tem um resultado consistente: o que mais muda a comunicação da criança não é o aplicativo nem a prancha, é o jeito como os adultos em volta usam o aplicativo ou a prancha. Por isso este plano é sobre você, não sobre a criança. Três regras valem para todos os dias:

  1. Modele, não cobre. Fale normalmente e toque (ou aponte) as palavras principais enquanto fala. "Vamos tomar banho" tocando em banho. Não peça para a criança repetir, não segure a mão dela para tocar, não pergunte "onde está o banho?".
  2. Espere 10 segundos. Depois de falar ou perguntar, fique em silêncio, olhando para a criança com cara de quem espera uma resposta. Conte até dez em silêncio. Parece uma eternidade; é o tempo que muitas pessoas precisam para processar e agir.
  3. Responda a toda tentativa. Se a criança tocou qualquer coisa, olhou para a prancha, apontou, fez um som: isso é comunicação. Responda ao que ela "disse", mesmo que pareça aleatório ("bolha? Você lembrou da bolha! Hoje não tem bolha, mas amanhã a gente faz").

E uma regra sobre o que não fazer: não teste a criança. "Mostra o cachorro", "onde está o azul?", "o que é isso?" transformam a prancha em prova. Ninguém gosta de prova. A criança precisa ver a prancha como um jeito de conversar, não de ser avaliada.

2. "CAA atrapalha a fala?"

Essa é a maior barreira para começar. Em uma pesquisa com 47 fonoaudiólogas brasileiras com pelo menos cinco anos de experiência em CAA, 80,8% apontaram a compreensão e a aceitação da família como a principal dificuldade (Martinez e Pires, 2022). Outro estudo, com 20 famílias e 20 fonoaudiólogas da UNICAMP, encontrou a crença de que a CAA "atrasa" ou "substitui" a fala entre as barreiras mais citadas (Romano e Chun, 2018). O guia de CAA do Ministério da Saúde, em consulta pública em 2026, lista esse mito entre os motivos pelos quais a CAA chega tarde.

A resposta da pesquisa é não. Millar, Light e Schlosser (2006) revisaram os estudos disponíveis sobre o efeito da CAA na fala de pessoas com deficiências de desenvolvimento: nenhum caso de piora da fala depois da introdução da CAA; na maioria dos participantes houve algum ganho. Romski e Sevcik (2005) listam "a CAA impede a fala" entre os mitos da área, junto com "precisa de uma idade mínima" e "precisa estar pronta". A ASHA, a associação americana de fonoaudiologia, afirma o mesmo.

O que ninguém pode prometer é o contrário: que a CAA vai fazer a criança falar. A fala depende de muitas coisas. O que a CAA garante é que a criança tem um jeito de se comunicar hoje, enquanto a fala vem ou não vem.

3. Os 7 dias

Dia 1: escolha uma rotina e prepare a prancha

Escolha uma rotina que acontece todo dia e tem começo, meio e fim: o café da manhã, o banho ou o caminho de carro. Imprima a prancha de 60 palavras (duas cópias: uma para a rotina, uma de reserva) ou abra o app. Deixe a prancha no lugar da rotina: colada na geladeira, dentro de um saco plástico no banheiro, no encosto do banco do carro. Hoje você só olha para a prancha e encontra cinco palavras que fazem sentido nessa rotina: quero, mais, acabou, não, gosto.

Dia 2: modele uma palavra

Durante a rotina, toque uma palavra enquanto fala, três ou quatro vezes. No café: "você quer pão?" tocando em quero; "mais leite?" tocando em mais. Só isso. Nada de esperar que a criança faça algo.

Dia 3: acrescente a espera

Modele como ontem e, depois de uma pergunta, espere 10 segundos em silêncio, com a prancha ao alcance da criança. Se ela não fizer nada, responda você mesmo ("eu acho que você quer mais") tocando as palavras, e siga em frente. Sem frustração: a espera é para ela ver que há espaço.

Dia 4: responda a tudo

Hoje a atenção é sua reação. Qualquer toque, olhar ou gesto em direção à prancha recebe resposta imediata e amplia em uma palavra: ela toca mais, você diz "mais banana! Você quer mais" tocando as duas. Ela toca não sem motivo aparente: "não? Tá bom, não agora". Toda mensagem é mensagem.

Dia 5: segunda rotina

Leve a prancha (ou o app) para uma segunda rotina do dia e repita os dias 2 a 4 ali, em versão curta. As mesmas palavras nos mesmos lugares; é assim que a criança aprende onde elas ficam.

Dia 6: inclua outra pessoa

Mostre para o pai, a avó, o irmão, a babá como você está fazendo: fala normal, toque nas palavras principais, espera, resposta a tudo. Peça que a pessoa modele numa rotina com você olhando. Quanto mais parceiros modelam, mais a criança usa.

Dia 7: olhe para trás e ajuste

Que palavras você usou de verdade? Quais faltaram (o nome do cachorro, "cócegas", "de novo")? Acrescente duas ou três sem mudar as outras de lugar. Marque o que a criança fez, por menor que tenha sido: olhou para a prancha, tocou uma vez, parou de chorar quando você modelou acabou. Isso é o seu ponto de partida, não uma nota.

4. Café, banho e carro: o que modelar

Palavras para modelar em três rotinas
RotinaPalavras núcleoExemplos para modelar
Café da manhã quero, mais, acabou, não, gosto, bom "Eu quero pão" · "Mais?" · "Acabou o leite" · "Hum, bom!"
Banho água, quente, frio, lavar, acabou, ajuda "A água está quente" · "Vamos lavar o cabelo" · "Acabou!" · "Ajuda aqui?"
Carro ir, parar, olha, rápido, longe, chegou "Vamos ir" · "Olha o ônibus!" · "Parou no sinal" · "Chegou!"

Repare que quase não há substantivos na lista: quero, mais, acabou, não servem em qualquer rotina e são as palavras que mais aparecem na fala de crianças pequenas. Os substantivos da sua casa (o nome do cachorro, a comida favorita) entram como complemento.

5. Depois da primeira semana

  • Continue. Aprender uma forma nova de se comunicar leva meses, como aprender a falar. Modelagem frequente é o que mais acelera; em estudos pequenos, as crianças aprenderam mais quando os adultos modelavam na maior parte das oportunidades.
  • Procure uma fonoaudióloga com experiência em CAA se a criança ainda não tem acompanhamento: no SUS (Centro Especializado em Reabilitação), no plano de saúde ou em clínicas-escola de universidades. Ela avalia, escolhe o sistema e o vocabulário com você e orienta a escola.
  • Leve a prancha para a escola. Mesmas palavras, mesmos lugares. Nosso guia do professor do AEE ajuda a conversar com a escola.
  • Seja honesta com a pesquisa. A modelagem tem a evidência mais forte da área (O'Neill, Light e Pope, 2018), mas uma revisão de 2021 mostra que, sozinha, ela é "inconsistentemente eficaz": funciona melhor combinada com espera, resposta e orientação profissional. Nenhum app, sozinho, melhora a linguagem.

6. Perguntas frequentes

Usar CAA atrapalha a criança a falar?

Não. Uma revisão de estudos de Millar, Light e Schlosser (2006) não encontrou nenhum caso de piora da fala depois da introdução de CAA; em parte dos participantes houve até algum ganho. Pesquisadoras como Romski e Sevcik (2005) listam essa crença entre os mitos da área, e o guia de CAA em consulta pública do Ministério da Saúde (2026) a cita como uma barreira a superar.

Com que idade se pode começar?

Não há idade mínima nem pré-requisitos. A comunicação se aprende usando: quanto antes a pessoa vê os outros usando a prancha ou o app para conversar, mais cedo ela tem a chance de experimentar.

Preciso esperar a avaliação da fonoaudióloga para começar a modelar?

Modelar em casa, sem cobrar nada da criança, não faz mal e pode começar hoje com uma prancha impressa. A avaliação profissional continua importante para escolher o sistema, o vocabulário e a forma de acesso adequados, e para orientar a família e a escola.

Quanto tempo leva para a criança usar sozinha?

Varia muito e ninguém pode prometer um prazo. Aprender uma nova forma de se comunicar leva meses, como aprender a falar. O que a pesquisa mostra é que a frequência da modelagem pelos adultos em volta é o que mais acelera.

Fontes

  • Millar, D. C.; Light, J. C.; Schlosser, R. W. (2006). The impact of augmentative and alternative communication intervention on the speech production of individuals with developmental disabilities: a research review. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, 49(2), 248–264.
  • Romski, M. A.; Sevcik, R. A. (2005). Augmentative communication and early intervention: myths and realities. Infants & Young Children, 18(3), 174–185.
  • O'Neill, T.; Light, J.; Pope, L. (2018). Effects of interventions that include aided AAC input on the communication of individuals with complex communication needs: a meta-analysis. JSLHR, 61(7), 1743–1765. doi:10.1044/2018_JSLHR-L-17-0132.
  • Kent-Walsh, J.; Murza, K. A.; Malani, M. D.; Binger, C. (2015). Effects of communication partner instruction on the communication of individuals using AAC: a meta-analysis. Augmentative and Alternative Communication, 31(4), 271–284.
  • American Journal of Speech-Language Pathology (2021), 30, 1210–1223: revisão de 99 delineamentos de caso único sobre entrada de linguagem assistida. doi:10.1044/2020_AJSLP-20-00102.
  • Laher, Z.; Dada, S. (2023). Efeito da dosagem de entrada assistida (6 participantes). Universidade de Pretória.
  • Banajee, M.; Dicarlo, C.; Stricklin, S. B. (2003). Core vocabulary determination for toddlers. Augmentative and Alternative Communication, 19(2), 67–73.
  • Romano, N.; Chun, R. Y. S. (2018). Comunicação Suplementar e/ou Alternativa: uso com crianças com autismo na perspectiva de famílias e fonoaudiólogos. CoDAS. SciELO.
  • Martinez, C. R.; Pires, S. C. F. (2022). Audiology — Communication Research. SciELO.
  • Ministério da Saúde. Guia de Comunicação Aumentativa e Alternativa (consulta pública nº 12/2026).
  • American Speech-Language-Hearing Association. AAC Practice Portal.

Este texto é informativo e não substitui a avaliação e o acompanhamento de profissionais de saúde e educação.